terça-feira, 9 de abril de 2013

Regador de travesseiro e flor

A urgência deu lugar à negligência, deixando a luz amarela da segunda-feira entrar - e a persiana no chão. Azul; incapaz de exercer sua função de racionar nossa luz. Sem exercer a função para a qual foi designada, perde o sentido. Reconheço que esse destino não é só das persianas. Desatino.
 
Qualquer flor precisa de água e luz. A luz da janela, amarelinha, na parede, quase tocando o ninho. Os pingos, do regador, caem em síncope - que, geralmente, nos faz dançar. Mas não dessa vez. Os pingos caem azul marinho. Se não visse de tão muito bem perto, diria que eram pingos pretos pretos pingos pingos pingos pingos pretos. Mas não. Eram azul marinho e azul marinho não é preto. Assim como pingos nem sempre são chuvas - prestatenção: mesmo que eles caiam em sua cabeça.

Qualquer flor precisa de água e luz. Por falta de água ela agora já não morre, mas de luz ainda tem fome. Não só da luz que vem das janelas do quarto sem persiana, entre outras tantas iguais por todos os lados. Mas daquelas, únicas, vizinhas do seu nariz, do é difícil que é o seu rosto.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Aurora Boreal

Não há nada nessa vida que não caiba num haikai, numa foto ou num abraço.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Cabeça de reticências

            Na minha casa, sempre fomos muitos. De filhos, meus pais tiveram três. 1990, 1991 e 1992. Eu, a última e única menina, sem privilégios, sempre fui tratada por igual – o sonho de muitas feministas e o meu pesadelo. De primos que se parecem irmãos mais velhos, tínhamos um casal.
Todos os anos, exatamente na mesma época de nossas férias escolares, meus pais participavam do ECC - “Encontro de Casais com Cristo”. Eram três dias que passavam fora, voltando apenas à noite para dormir – para eles, alegria; para nossa babá, pesadelo; para nós, diversão.
As coisas mais terríveis nós aprontávamos “coincidentemente” nessa época do ano. Eram pernas e braços quebrados, queixos cortados e infinitos arranhões. Eu, que sempre fui impressionantemente fisicamente flexível, me esquivava desses tipos de lesões. Porém, nunca negava uma boa brincadeira.
Num desses dias, no quintal da nossa casa grande, com todos os irmãos e primos, resolvemos brincar com uma velha caixa cheia de brinquedos. Como a infância faz com gente grande, os brinquedos dos anos que deixávamos pra trás nos acertavam e deixavam marcas – acompanhadas de sorrisos. Mas, como nem tudo são flores, nem tudo ali era brinquedo – “se escondam que eu vou jogar”, gritou o primo mais velho, mas não mais sensato, quando encontrou um pedaço quadrado de madeira. Eu, apressadamente, me escondi atrás da outra caixa que estava no final do quintal e esperei.
Porém, o pedaço do que um dia foi árvore não me esperou. Parecia mágica, ilusão ou mentira (porque milagre não poderia ser): a madeira, ao ser jogada, fez uma curva e uma de suas pontas me acertou à cabeça. Desde criança, aparentando ser forte, sem lágrimas nos olhos, disse “tudo bem” enquanto todos me olhavam com olhos arregalados e tentavam me fazer crer que dali saía sangue. Ainda incrédula, passei a mão no lado esquerdo na cabeça, olhei e a vi completamente ensanguentada. Fez-se, então, o desespero de uma criança no auge dos seus cinco anos. Mais rápida que ambulância, minha mãe chega em casa e me leva para fechar a cabeça. Foram precisos três pontos, uma lágrima e um sorvete de baunilha.
De lá pra cá, em nossas discussões, quando o sangue sobe à cabeça, a lágrima fica prestes a sair dos olhos e o sorvete fica pra mais tarde, não param de usar o argumento que tenho a cabeça fechada.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Receita

Há tempos que o Médico alerta, com letras legíveis (pasmem!):
minha gente, o Amor é panacéia!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tino

Ele pulou rapida e decididamente de dentro do ônibus, mesmo sem conhecê-la. 
Numa segunda-feira, às 7h da manhã, é difícil pensar no amor pela vida. Em doar-se.
Como um lembrete, a cena: uma mulher na cadeira de rodas, o elevador do ônibus emperrado - impedindo que este tocasse o chão. Decidida, ela subiria mesmo assim. Sem abrir a boca para reclamar de algo ou sequer pedir ajuda.
Mas tem fardos que são pesados demais para se carregar numa segunda-feira ou em qualquer outro dia da semana. Há quem saiba. Ele percebeu.
O seu pulo, forte e insuficiente. Porém, suas mãos e braços, fortes e sutis, a trouxeram para cima.
Sentou-se em sua cadeira; ela ocupou também o seu lugar - eu não ouvi, mas deve ter havido um "obrigada" no meio disso tudo. Talvez com o olhar. 
Ambos desconhecidos, levaram meu pensamento muito além do "será que o próximo é o meu?".

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Um pouco além do praxe

Deixei os versinhos um pouco de lado, porque às vezes eu preciso tentar falar muito falando muito. Até o momento em que eu perceber que estou me repetindo demais ou me perdendo nos sentidos - e talvez isso aconteça desde o comecinho até o fim. Preciso falar pra ver se eu entendo. E, se eu entendo, pra ver se eu faço, ponho em prática, abro mão, corro atrás, sacrifico, me jogo e me seguro. Seguro em Você. Me jogo em mim. Pratico o que eu nunca fiz e faço o que eu não sei. Abro mão do que eu não tenho e corro atrás do que já está comigo. Sacrifico o que não me pertence e aquilo que já te dei - ainda que constantemente eu tente tomar de volta. Você segura forte em mim, não joga fora, me acompanha na corrida, providencia aquilo que irei sacrificar, não apenas abre a mão - a estende, me entende e ensina. Como quando meu irmão tentou me ensinar matemática e a aula terminou em choro meu, eu questiono o porquê das fórmulas. Na recuperação, resolvo prestar atenção aos detalhes do desenvolvimento da equação e percebo que o professor sempre foi bom - eu que não estava disposta a aprender. Ainda assim, o aprendizado nem sempre é suficientemente forte pra apagar os questionamentos sobre o surgimento do problema. Mas funciona perfeitamente como lembrete de que a resposta vem no final. Percebo que a fórmula é também solução. E, aí, entregando a prova nas mãos de quem me ensinou, antes mesmo de receber a nota, eu posso descansar daquela corrida.

Esboço

"A criatura procura seu criador". Li. Pensei. 
Sobre aqueles casos em que familiares se reencontram anos depois do nascimento de um deles. O motivo pode ter sido um abandono, talvez. Porém, por mais perturbador e triste que seja, há casos em que tudo é esquecido depois do primeiro abraço. Com a vontade de recomeçar em uma mão e a certidão de nascimento para ser assinada na outra, os olhos fechados, a boca calada, o coração funcionando loucamente e o pensamento mais perto do que nunca (se fosse longe demais, correria o risco de lembrar que já foi triste), saem do abraço como quando é preciso levantar da cama cedo em um dia de chuva. Sem vontade alguma.  
O ponto (ou as reticências) é que minha certidão está assinada, tenho abraços, colo, apoio e parentes até dizer chega. Conheço a minha história - apesar de sempre esquecê-la quando resolvo contar a alguém sobre as complicações que tive e o trabalho que dei antes mesmo de completar um ano. Mas sei dizer bem quem me segurou, aonde me levou e, principalmente, por quem fui curada. É certo que, ao crescer, outras complicações me surgiram - essas, muitas vezes, provocadas por mim. Que só eu sabia. Era o que eu pensava, quando esquecia. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Começa com T

Recomendo: tenha um amigo que te faça chorar.
Mas só se for como o meu. Enquanto ele não está, também não parece se preocupar o tempo todo em preencher seu vazio aqui (que é grande e eu só noto quando o vejo). Mas, às vezes, tenho a impressão de que cochicham no ouvido dele e, daí, formam-se as palavras que lerei mais tarde. 
- Não é que não possam ter saído da sua mente, mas é que são sempre tão certeiras que deve ter algo de mágico nisso! - 
Apesar de eu nunca ter ouvido, acho que cochicham por aqui também. 
- Assim, sei exatamente quando procurar lê-las. -
Provavelmente, não no meu ouvido... se assim fosse, eu saberia exatamente o que comentar  (seja para parecer inteligente, compreensiva ou confusa). 
Mas eu quase nunca tenho o que escrever diante de seus escritos. 
Talvez o cochicho, aqui, seja no coração.
Quando ele não está preparado.

domingo, 17 de junho de 2012

Sobre engano

Pra quem não conhece som de tiro,
cada estalo bebé é uma alma.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sim, please

A água que escorre no vidro faz o papel chorar e nos faz derreter. Só por fora. A luz fica linda na chuva.
(e as duas te fazem ficar bem bonito também - mas é segredo)
Somos um caminhão de bonança em meio à tempestade. Mesmo estando dentro de um carro, mesmo sendo eu. Às vezes sinto vontade de estar lá fora. Sei que não demoraria pra eu voltar correndo - querendo muito sentir teu rosto quentinho. Sei também da tua disposição em estar debaixo da chuva comigo. Fico aqui.


quarta-feira, 13 de junho de 2012